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    Era 21h53 de uma quarta-feira qualquer, eu assistindo ao jogo da fase de grupos da Copa de 2022 com meu cunhado — ele fanático por futebol europeu, eu mais ligado ao que acontece nas Américas — quando ele apontou pro televisor e disse: “O Marrocos vai longe”. Eu ri. Ele não estava errado.

    Aquele Marrocos chegou às semifinais e virou o símbolo de tudo que a gente erra quando fala de favoritos numa Copa. O problema não é que as pessoas escolhem mal os candidatos ao título — é que a maioria usa o mesmo critério de sempre: quem ganhou antes, quem tem o melhor jogador no momento, quem liderou as eliminatórias. Esses filtros são úteis, mas cegos para o que realmente decide um torneio de Copa do Mundo: intensidade coletiva, contexto histórico do grupo e capacidade de surpreender uma defesa que não te estudou direito.

    Com a Copa de 2026 chegando — disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com 48 seleções pela primeira vez na história —, o barulho em torno dos favoritos tradicionais já está no volume máximo. Brasil, França e Argentina dominam qualquer bolão por aí. Mas três seleções estão sendo tratadas como coadjuvantes quando deveriam estar no centro da conversa.

    1. Portugal: o time que finalmente aprendeu a existir sem depender de um único homem

    Durante quase duas décadas, Portugal era sinônimo de Cristiano Ronaldo. O elenco existia pra sustentar ele. A tática era construída ao redor dele. Quando ele não jogava bem, o time não jogava bem — ponto.

    Só que alguma coisa mudou nos últimos dois anos. A seleção portuguesa começou a operar com uma lógica diferente: Bernardo Silva organizando o meio, Vitinha controlando o ritmo, Bruno Fernandes conectando setores. Cristiano ainda está lá, mas o time não trava mais quando ele some de um jogo. Isso é uma virada estrutural enorme.

    Numa Copa com 48 seleções, a fase de grupos fica mais fácil pra qualquer favorito — o que libera Portugal pra chegar nas oitavas descansado, sem precisar se expor demais cedo. E na fase eliminatória, com jogadores acostumados a pressão nas maiores ligas da Europa, o repertório técnico deles é assustador.

    Quem subestima Portugal geralmente está olhando pra Copa de 2022 — quando eles caíram nas quartas para o Marrocos — e esquece que aquele time era outro. Esse aqui tem mais equilíbrio. Tem mais adultos em campo.

    2. Alemanha: o rebaixamento de 2023 foi o melhor que aconteceu pra eles

    Em novembro de 2023, a Alemanha foi rebaixada na Liga das Nações da UEFA. Pra um país que ganhou quatro Copas do Mundo, aquilo foi uma humilhação pública. A imprensa alemã foi dura. A federação foi obrigada a agir.

    O que aconteceu depois foi interessante: uma renovação real, não cosmética. Jogadores jovens ganharam espaço porque a velha guarda não estava entregando. O técnico passou a montar times sem o peso da tradição como desculpa pra manter veterano no lugar de talento novo.

    A Copa na Europa de 2024 jogada em casa mostrou uma Alemanha diferente — mais vertical, mais corajosa, eliminada nas quartas apenas nos pênaltis contra a Espanha num jogo que poderia ter ido pra qualquer lado. Eles saíram daquilo com moral renovada e um grupo que, agora, em 2026, tem dois anos a mais de experiência junto.

    Levantamentos feitos por analistas de desempenho de seleções apontam que a Alemanha está entre os times com maior evolução em métricas de pressão alta e transição rápida nos últimos 18 meses — e esses são exatamente os fundamentos que ganham jogos eliminatórios numa Copa do Mundo.

    Ninguém fala muito deles porque o ciclo ruim ficou na memória. Mas memória não joga futebol.

    3. Colômbia: a seleção que chegou na hora certa

    A Colômbia foi vice-campeã da Copa América em 2024, perdendo a final para a Argentina. Mas o que aquele torneio mostrou não foi derrota — foi maturidade. James Rodríguez, com mais de 30 anos, jogou o melhor futebol da sua carreira em anos. E o mais importante: o time não dependeu só dele.

    Luis Díaz, do Liverpool, chegou à Copa América em forma absurda. Richard Ríos surgiu como um dos melhores meias-defensivos das Américas. A defesa, historicamente o calcanhar de aquiles colombiano, funcionou com consistência por semanas seguidas.

    Numa Copa com 48 seleções, a Colômbia cai numa chave muito mais administrável do que teria em edições anteriores. Isso significa chegar nas oitavas com o grupo inteiro, sem desgaste excessivo, pronta pra fazer o que faz de melhor: pressionar alto, sair em velocidade e criar caos pra qualquer defesa europeia que não estudou o continente sul-americano a fundo.

    Eu lembro de assistir à Colômbia em 2014 — aquele time com Cuadrado na ala, James explodindo pro mundo, Falcão lesionado — e pensar que eram a revelação mais honesta daquela Copa. Esse time de 2026 tem mais profundidade. E chega com a fome de quem esteve perto, sentiu o sabor e ainda não chegou lá.

    O que não funciona quando você tenta prever uma Copa

    Já ouvi e li muita análise de favoritos nesses anos acompanhando futebol. Algumas abordagens simplesmente não funcionam:

    • Ranquear pelo FIFA Ranking: o ranking da FIFA é calculado com uma metodologia que não reflete forma recente nem coesão de grupo. Brasil ficou bem ranqueado em ciclos horríveis. Não use isso como critério principal.
    • Apostar em quem tem “o melhor jogador do momento”: Copa do Mundo não é individual. Messi ganhou em 2022 com uma seleção coletiva excepcional — não sozinho. O jogador individual importa menos do que o sistema em que ele está inserido.
    • Ignorar o histórico de pênaltis: mata-matas modernos vão muito pra pênalti. Seleções que não treinam isso de forma sistemática — e várias não treinam — perdem jogos que não deveriam perder. Isso eliminou favoritos em múltiplas edições.
    • Subestimar o calendário de preparação: times que chegam à Copa com jogadores no limite físico, vindo de temporadas europeias pesadas, não rendem igual nos últimos 20 minutos de um jogo eliminatório. Isso parece óbvio mas raramente entra nos palpites.

    Um caso concreto: como eu errei em 2022 e o que aprendi

    Em 2022 eu montei um bolão com amigos. Coloquei Brasil campeão, França na final, Espanha como terceiro lugar. Resultado: acertei a França na final. Errei tudo o mais.

    O que eu não considerei foi o desgaste físico do Brasil vindo de uma temporada europeia intensa pra maioria dos titulares, a falta de um segundo plano tático quando o adversário fechou o espaço pra Neymar, e a Croácia — que eu descartei como “velha demais” — que tinha exatamente o tipo de consistência defensiva que desmonta times que dependem de genialidade individual.

    Não estou dizendo que Brasil não é favorito em 2026. Estou dizendo que favorito não significa certeiro. E que as três seleções que mencionei aqui têm, cada uma, pelo menos um argumento estrutural que as coloca muito mais perto do título do que o senso comum admite.

    O que fazer com isso antes do torneio começar

    Três coisas pequenas, concretas, que você pode fazer essa semana:

    • Assista a pelo menos um jogo recente de Portugal, Alemanha e Colômbia pelas eliminatórias ou amistosos de 2025 — não pra torcer, mas pra observar o esquema tático sem o barulho emocional do bolão.
    • No seu grupo de WhatsApp de bolão, pergunte: “Por que você escolheu esse favorito?” Se a resposta for só “porque sempre foi forte”, isso é um sinal de que dá pra explorar.
    • Antes de fechar qualquer aposta ou bolão, olhe o calendário de preparação das seleções — quantos jogos pesados os titulares principais fizeram nos 30 dias antes da Copa. Esse detalhe decide mais do que parece.